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Por que um Ícone NÃO é um Retrato de um Santo [1]

Existem atualmente muitas fotografias e retratos de pessoas que foram canonizadas como santas, mas se você reparar em seus ícones, as semelhanças são mínimas: iconógrafos se esforçam para preservar apenas as características mais típicas e gerais da aparência do santo. Por quê?

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Afresco no domo da Catedral de São Serafim de Sarov, em Santa Rosa, Califórnia (fragmento)


O ícone sempre representa uma pessoa: não há um ícone sequer que não seja antropológico em seu conteúdo. Até mesmo Anjos são retratados como seres humanos. Todos os animais, plantas e edifícios retratados no ícone são apenas detalhes da trama, mas seu foco é sempre o ser humano - o Deus-Homem Jesus Cristo, a Mãe de Deus e os demais santos. Por outro lado, o ícone não é um retrato; ele não transmite a exata aparência do santo nele representado.

Existem atualmente muitas fotografias e retratos de pessoas que foram canonizadas como santas, mas se você reparar em seus ícones, as semelhanças são mínimas: iconógrafos se esforçam para preservar apenas as características mais típicas e gerais da aparência do santo. A aparência da pessoa no ícone é reconhecível, mas ao mesmo tempo seus traços faciais são mais refinados e elegantes.

Existe uma tradição que diz que um iconógrafo deve ter um ícone do Salvador em frente de seus olhos quando ele está pintando o ícone de um homem santo e o da Mãe de Deus quando de uma mulher santa. Isso pode ser explicado pelo fato do ícone representar a pessoa em seu estado divinizado, transformado.

É isto que Leonid Uspensky diz em seu livro A Teologia do Ícone:

"Um ícone é uma imagem de um homem em quem a graça do Espírito Santo, que consome todas as paixões e o santifica, habita. Portanto, seu corpo é representado essencialmente distinto da carne comum e corrupta do homem. O ícone é uma transmissão sóbria e espiritual, baseada na experiência, de uma certa realidade espiritual, completamente desprovida de qualquer extravagância.

O ícone nos mostra um homem transformado. Conforme a Bíblia, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (cf. Gênesis 1:26). A imagem de Deus no homem foi distorcida após a Queda. Graças ao poder do Espírito Santo, contudo, a imagem de Deus em sua beleza natural pode ser restaurada dentro do homem, mas o próprio homem deve tomar sobre si trabalho ascético. Um ícone Ortodoxo se torna, de certa forma, um manual sobre ascetismo: iconógrafos inconscientemente pintam os braços e as pernas de um santo mais estreitas e os traços faciais mais alongados, o que, de certa maneira, comunica aquelas mudanças da carne transformada, que sucedem por causa do feito ascético e do poder do Espírito Santo.

Se compararmos a imagem do corpo humano em pinturas do Renascimento e a dos ícones, a diferença é óbvia.

Na maioria dos ícones, o corpo está coberto por vestes que o indicam somente simbolicamente. Existem exceções, todavia, quando o corpo é representado quase completamente nu, mas até mesmo nestas exceções ele é desprovido daquelas características corpóreas que poderiam provocar pensamentos passionais. A imagem no ícone é desprovida de qualquer apelo visual. Ela não mostra um processo, mas o resultado em si: a pessoa representada não está combatendo as paixões, mas já as venceu; não está sendo transformada, já foi. Assim, outra característica do ícone é que ele não é dinâmico, mas estático (exceto pelos selos hagiográficos). Os santos nunca são pintados de perfil: suas faces estão sempre à mostra, ou, se o contexto assim requer, ao menos três quartos da face. As pessoas que não são veneradas (personagens negativas como feiticeiros, Judas na Última Ceia, etc.) pode ser retratadas de perfil. Animais (o jumento no qual Cristo entrou em Jerusalém, os cavalos do ícone dos Ss. Bóris e Gleb, etc.) são sempre retratados de perfil.

Outra indicação do estado santificado da pessoa no ícone é que o iconógrafo evita registrar qualquer defeito corporal que a pessoa tinha enquanto viva, por exemplo: uma pessoa cega é retratada com seus olhos abertos, como o ícone de Santa Matrona de Moscou com os olhos fechados não está de todo correto. Ou, se por acaso o santo não possuía uma mão, o ícone o representará com ambas; se ele usava óculos, será representado sem. Conforme a doutrina dos Padres da Igreja, as pessoas obterão seus antigos corpos na ressurreição, mas estes serão renovados e transfigurados. Tradicionalmente, os ícones descrevem os mortos, não os cegos, com os olhos fechados, como a Virgem na cena da Dormição, ou o Salvador na tumba ou na cruz.

O ícone não representa dor e sofrimento de forma a causar empatia - não é seu propósito. Ele não deve afetar emocionalmente o que vê; ele é estranho a emoções e lágrimas. Portanto, por exemplo, um ícone Bizantino da Crucificação representa Cristo como morto, não como estando em agonia, em contraste com as imagens Ocidentais. Outro exemplo são os santos em suas torturas - suas faces estão desprovidas de expressões de dor ou sofrimento. Não demonstram qualquer tipo de emoção.

A face se torna o foco do ícone em termos de conteúdo e significado. Ela é normalmente pintada no final. Primeiro, o iconógrafo pinta todo o resto: o ambiente, as roupas, a trama etc. O ambiente e o demais são pintados em algumas camadas, enquanto que a face (incluindo as mãos que possuam significância especial no ícone) é pintada em muitas camadas, passando pelos tons escuros até os claros. A face sempre era tratada com especial cuidado, normalmente pintada por um mestre iconógrafo, ao passo que os pupilos e aprendizes podiam pintar o resto do ícone. Pintar as faces era particularmente valioso. Os olhos se tornam o centro espiritual da face, não olhando nem diretamente para o espectador, nem desviando o olhar, apenas um pouco "acima" dele - não em seus olhos, mas para sua alma.

A base para toda a vida da Igreja é o decisivo e todo-determinante milagre da encarnação de Deus e da santificação do homem. É o ícone que presta testemunho da vitória do homem contra a corrupção e decomposição - um testemunho de outro plano de existência e da perspectiva de seu relacionamento com o Criador."


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