A Revolução Bolchevique Americana: 2020 Rumo a 1917

Pensamos que estamos protegidos de uma revolução. Estamos errados: ela já está em andamento.

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Quando a Revolução Russa derrubou o Czar e colocou os Bolcheviques no poder, os países civilizados da Europa ocidental tinham bons motivos para dizer a si mesmos que isso jamais aconteceria com eles.

A Rússia era um país "bárbaro" com uma estrutura social desigual, massas de camponeses e nenhuma classe média. Seu sistema político era uma relíquia do passado, uma época em que as revoluções nas ruas ainda aconteciam. O resto da Europa era mais moderno, com constituições, parlamentos e sindicatos. Qualquer conflito político podia se resolver por meio desses canais adequados.

Oficiais do exército Russo fazem o juramento de lealdade à Revolução de Outubro de 1917. (Por Everett Collection/Shutterstock)

Então veio a revolução Alemã de 1918-19, e a Europa civilizada teve que recalibrar seu senso do que era possível. A agitação nas ruas levou à abdicação forçada do Kaiser, à proclamação de uma república, a um governo Soviético em Munique e a quase outro em Berlim, que foi impedido apenas por um golpe na cabeça de Rosa Luxemburgo. O levante não cumpriu todas as esperanças de seus proponentes, em termos de inaugurar uma nova aurora socialista, mas refutou de forma decisiva a ideia de que as condições modernas tornaram a revolução obsoleta.

Os anos 60 deixaram os Americanos com a mesma certeza de que uma revolução nunca poderia acontecer aqui. Uma geração inteira entrou em rebelião aberta, a agitação urbana explodiu, tanques rolavam pelas ruas de Los Angeles e Detroit, e bombardeios periódicos fizeram muitos temer que o Lenin da contracultura pudesse estar lá em algum lugar aguardando seu tempo - e ainda assim nós sobrevivemos ao pesadelo ilesos. Os Americanos concluíram que nossa prosperidade, ou a flexibilidade de nosso sistema político, ou talvez apenas a marcha da civilização, havia transformado a rebelião de rua, de uma ameaça genuína, em um passatempo seguro para jovens idealistas fervorosos.

Contudo, estamos realmente tão seguros? Em junho, o grande professor de literatura Russa, Gary Saul Morson, disse ao The Wall Street Journal que a América estava começando a parecer estranhamente familiar. “É surpreendentemente parecido com a Rússia do final do século XIX e início do século XX, quando basicamente toda a classe instruída julgava que todos precisavam ser contra o regime ou revolucionário de certa forma”, disse ele. Mesmo o Partido Kadet (moderado) não podia condenar o terrorismo contra o Czar, da mesma forma que um Democrata moderno não pode condenar o Vidas Negras Importam. “Uma famosa frase de um dos líderes liberais apresentou [a situação] desta forma: 'Condenar o terrorismo? Essa seria a morte moral do partido'”.

Hoje, a Resistência já está sinalizando que não aceitará uma vitória de Trump em novembro mais do que aceitaram em 2016. Após a última eleição, eles tentaram um golpe suave por meio do escândalo do Russiagate e do impeachment. Que tipo de golpe virá a seguir? Observando o precedente Russo, podemos avaliar o risco de que este país promova nossa própria versão distintamente Americana de 1917 - e quão perto já estamos disso.

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Tocqueville disse que o momento mais perigoso para um regime não é quando as condições são as piores, mas apenas quando as coisas começam a melhorar. Na realidade, o momento mais perigoso para um regime é quando as pessoas podem sair de suas casas após longos meses confinadas em ambientes fechados.

O clima influenciou a Revolução Russa tanto quanto qualquer outro fator. O inverno de 1916-17 foi um dos mais frios já registrados, forçando São Petersburgo a um semi-confinamento. A primavera finalmente chegou em 7 de março, que por acaso foi o Dia Internacional da Mulher. As pessoas invadiram as ruas para desfrutar de temperaturas próximas aos 10 graus e, incidentalmente, aumentaram os números do protesto socialista. A abdicação do Czar aconteceu exatamente uma semana depois.

Essa foi a primeira revolução, quando a dinastia Romanov foi substituída pelo curto governo provisório. A segunda revolução, que instalou os Bolcheviques, foi possibilitada por outro problema familiar aos leitores modernos: o crime de rua. O novo regime apressou-se em estabelecer sua bona fides progressista ao aprovar a lista completa de desejos das demandas liberais: anistia para presos políticos, abolição do açoitamento , liberdade ilimitada de imprensa e reunião. Eles foram menos enérgicos no restabelecimento da lei e da ordem básicas. Bairros antes seguros de São Petersburgo tornaram-se sem lei e, em julho, os linchamentos de bandidos de pequenos criminosos se tornaram uma ocorrência quase diária. Cidadãos se organizaram para se proteger depois que o Governo Provisório provou que não faria ou não poderia fazer nada. Depois disso, a política da Cheka de atirar em criminosos à primeira vista veio quase como um alívio.

Um cidadão comum de São Petersburgo podia se sentir muito longe das linhas de frente da guerra na maior parte do tempo, mesmo em 1917, mas não conseguiu se sentir longe de seus efeitos. As interrupções no fornecimento de carvão fizeram com que mais de 500 fábricas fechassem em 1917 e expulsaram mais de 100.000 funcionários do trabalho somente na capital. As dispensas aumentaram a cada mês, conforme o verão e o outono avançavam, deixando muitos homens nas ruas sem nada para fazer.

Esses foram alguns dos fatores incidentais, o isqueiro que gerou as faíscas. Para lançar uma verdadeira revolução, porém, é necessário mais do que faíscas. O fogo deve ter combustível. Nesse sentido, a causa mais profunda da revolução não foram os homens sem nada para fazer, mas os homens que tinham coisas importantes a fazer, mas não conseguiram fazê-las: a elite liberal. A Rússia poderia ter sido salva por meio de uma reforma sem revolução, mas as pessoas que deveriam ter tentado realizar esse ato de equilíbrio careciam de qualquer investimento na ordem existente. Em vez disso, deram seu apoio moral a terroristas violentos. Foi esse erro moral que levou Lênin ao poder - e é o erro que o professor Morson acha tão familiar hoje.

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Durante a Guerra Fria, costumava ser piada que a União Soviética tinha tanta liberdade de expressão quanto a América, pois também garantia a seus cidadãos o direito de ficar no meio da praça da cidade e gritar: “Abaixo Ronald Reagan!”. A piada, é claro, é que o verdadeiro teste para o nível de liberdade de um regime é geralmente se você tem permissão para criticar o líder de seu país. Porém, em certas condições patológicas, o teste é: você pode elogiá-lo?

Não era possível elogiar o Czar na Rússia na virada do século, não se você fizesse parte da elite letrada. A questão não era se eles queriam que a queda do regime, mas que grau de medidas extremas eles tolerariam para provocar essa queda. O lado esquerdo do espectro político se estendeu até o infinito; o lado direito parou em algum lugar em torno do centro esquerdo. A robusta tradição de conservadorismo intelectual que existia na Rússia desde a época de Catarina, a Grande, foi lentamente erodida até não mais existir.

Aquilo foi muito mais extremo do que a rebeldia usual que caracteriza a classe dos intelectuais em qualquer época. Sob os Czares anteriores, um homem de letras como Dostoiévski ainda podia manter uma correspondência viva com um burocrata reacionário como Konstantin Pobedonostsev, até mesmo pedindo sua opinião sobre Os irmãos Karamazov. Escritores e poetas podiam se irritar com a interferência da agência de censura, mas não queriam abolí-la, muito menos abolir a monarquia. A autocracia não havia permitido que a Rússia libertasse os servos sem uma guerra civil, como se deu na América democrática? Melhor trabalhar dentro do sistema, mesmo que seus objetivos sejam progressivos.

Tudo isso mudou na época da coroação de Nicolau II em 1896. Repentinamente, os terroristas ganharam uma posição de vantagem moral, parecendo que nada do que pudessem fazer poderia fazê-los perdê-la, até mesmo o assassinato a sangue frio de mulheres e crianças. “Era uma conversa comum nas melhores famílias, nas casas dos generais e outros, que a Imperatriz deveria ser morta e retirada do caminho”, escreveu um professor de São Petersburgo a um amigo Americano. Comerciantes ricos e industriais como Savva Morozov e Mikhail Gotz - homens que você poderia esperar que fossem gratos à ordem existente por tornar sua prosperidade possível - deram a grupos marginais como os Bolcheviques o dinheiro para publicar seus jornais e apoiar seus líderes no exílio. Cada vez que Nicolau perdia um ministro por assassinato, sua agência de segurança mostrava-lhe cartas particulares entre pessoas importantes aplaudindo os assassinos.

Até mesmo a família do próprio Czar não estava imune. A breve experiência da Rússia com julgamentos com júri (introduzida em 1864) revelou que os júris Russos eram anormalmente relutantes em condenar. Até mesmo um réu que confessasse o crime poderia frequentemente ser absolvido se seu advogado fizesse um discurso convincente sobre boas intenções e uma educação difícil - algo sobre a abordagem Ortodoxa do pecado e da redenção, em contraste com o legalismo ocidental. Entretanto, ainda foi um choque quando o Grão-Duque Andrei, primo do Czar, foi ouvido a comentar no final do julgamento de terrorismo de Grigory Gershuni: "Eu percebo que eles não são vilões e acredito sinceramente em suas ações". Esta foi uma célula que assassinou o ministro do Interior.

Quando até mesmo os membros da família real ignoraram o terrorismo, aquilo foi um sinal de que algo estava profundamente errado. Isso indicou que os instintos de autopreservação que mantêm um regime vivo não estavam mais operando. Quando os membros de uma elite concordaram inteiramente com os objetivos dos revolucionários e se opuseram apenas às suas táticas, bastou uma crise para mostrar o quão frágeis eram essas objeções procedimentais. Nesse ponto, a única dúvida é quando a crise chegará.

Em 1904, o co-fundador do Partido Kadet, Pavel Miliukov, visitou o príncipe Peter Kropotkin, de 61 anos, em Londres. Kropotkin foi o pai do anarquismo Russo, então Miliukov ficou surpreso ao ver o velho enlouquecer quando soube do ataque Japonês à frota Russa em Port Arthur. “Como poderia o inimigo da política Russa e da guerra patrocinada pelo estado em geral ser tão nacionalista?", Miliukov se perguntou. Ele tinha então 45 anos. Aos 60 anos, ele ficaria igualmente surpreso ao saber o quão profundo o ódio permeou a geração mais jovem. A lealdade à ordem constitucional que parecia tão básica para ele, eles achavam desprezível. Esta progressão, de Kropotkin a Miliukov e aos Bolcheviques, mostra como essas mudanças se acumulam geração após geração até que nenhuma lealdade à ordem existente permaneça e a posição do regime se torne fatal.

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Neste verão, na primeira semana de junho, cerca de 6.000 policiais e tropas da Guarda Nacional foram destacados para Washington, D.C., para manter a ordem durante os protestos lá, e outros 1.700 soldados de Fort Bragg ficaram esperando fora do distrito. Quando o presidente Trump apareceu em Lafayette Park naquela segunda-feira, a polícia teve que limpar a praça usando bolas de pimenta e granadas de fumaça porque os manifestantes estavam jogando projéteis e a segurança do presidente não podia ser garantida. Em vários momentos durante a semana, a única coisa que impediu a Casa Branca de ser invadida foi uma linha de homens armados do Serviço Secreto e da Polícia do Parque, 51 dos quais foram feridos e 11 hospitalizados pelos manifestantes.

Isso não teria sido necessariamente motivo para alarde - há protestos em Lafayette Park literalmente todos os dias - exceto que aconteceu na mesma semana em que o ex-secretário de defesa Jim Mattis publicou uma longa entrevista no The Atlantic denunciando o presidente e dizendo, de forma ameaçadora, "Devemos rejeitar e responsabilizar aqueles no cargo que zombem de nossa Constituição”. O presidente da Junta de Chefes de Estado-Maior também fez uma declaração naquela semana condenando a aparição do presidente em Lafayette Park e expressando seu apoio aos objetivos dos manifestantes.

Esses murmúrios de generais proeminentes levantaram a questão: e se o presidente desse uma ordem para limpar Lafayette Park e os oficiais militares não a seguissem? E se eles decidissem que a ordem era, como disse Mattis, uma ameaça à Constituição? A prefeita Muriel Bowser expulsou algumas tropas da Guarda Nacional dos hotéis de D.C. em 5 de junho porque não aprovava sua missão e não havia nada que a Guarda Nacional pudesse fazer, exceto tentar encontrar outro hotel. Menos de uma semana depois da entrevista com Mattis, o The Atlantic publicou um artigo de Franklin Foer sugerindo que o modelo da revolução colorida poderia ser um bom modelo a ser seguido se mais autoridades Americanas pudessem ser persuadidas a tratar o presidente Trump da mesma forma que os Ucranianos trataram seu corrupto presidente Yanukovych nos dias antes de ele pegar um avião para Moscou. A revista interna da Resistência, que tanto fez para impulsionar o golpe suave de Russiagate, aparentemente estava preparando o terreno para algo mais difícil.

Em agosto, vazou a notícia de que um grupo de funcionários do governo e agentes políticos que se autodenominam Projeto de Integridade em Transição havia se reunido algumas semanas antes para testar possíveis cenários eleitorais. Em um deles, John Podesta, no papel do candidato Joe Biden, recusou-se a ceder depois de ganhar o voto popular, mas perdeu por pouco no Colégio Eleitoral, alegando supressão de votos. O Congresso se dividiu, os estados Azuis ameaçaram se separar e o resultado hipotético foi determinado pelos militares. Evidentemente, as pessoas sérias do lado Democrata estão pensando em termos muito amplos sobre o que os próximos meses trarão. Os Republicanos também deveriam, porque cenários como os que Podesta e Foer estão imaginando podem ser sem precedentes nos Estados Unidos, mas certamente não são sem precedentes na história moderna.

SOBRE O AUTOR

Helen Andrews é a editora sênior do The American Conservative e autora do vindouro livro sobre os Baby Boomers a ser publicado pela Sentinel neste outono. Ela trabalhou no Washington Examiner e no National Review, e como pesquisadora de "think tank" no Centre for Independent Studies em Sydney, Austrália. Ela é bacharel em Estudos Religiosos pela Universidade de Yale. Seu trabalho foi publicado no The New York Times, The Wall Street Journal, First Things, The Claremont Review of Books, Hedgehog Review e muitos outros. Você pode segui-la no Twitter em @herandrews.

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